Nós nunca nos realizamos.
Somos dois abismos — um poço fitando o Céu.
— Fernando Pessoa.
(Source: littlebeeflying)
(Source: nihilismechronique)
- Como é estranho ter saudade de si mesmo - Disse ela, abandonando lentamente seu devaneio e voltando seu rosto para ele. - E é tão frequente eu ter dessas saudades, tão frequente… Pensar em quando eu era uma menina, amá-la, a essa menina, como a alguém que conheci intimamente, com quem partilhei a vida e a felicidade e tudo, alguém que depois perdi, sem ter culpa. Que bom tempo foi aquele! Não imagina o encanto ideal que é a vida de uma mocinha assim, como eu era, que começa a amar. Só a música poderia exprimi-lo. (…) Tudo cheio de claras e frescas flores que mudam de cor, que trocam, entre si as suas cores, lentamente… Tudo vibra em sons alegres, porém, muito suaves, e os vagos pressentimentos ardem e resplandescem como um vinho místico em delicadas taças de sonho, e tudo são cantos e perfumes: mil rastros de perfumes pelas salas. Ah, quando penso nisto, tenho vontade de chorar, e, também quando penso que. se por um milagre tudo isto me fosse dado novamente, eu é que não poderia mais viver aquela vida. Cairia. Numa vertigem.
-Jens Peter Jacobsen - Niels Lyhne.
(Source: cravos)
O calor cola. A tarde arde e arqueja.
Ela arfa, sem querer, nas leves vestes
e num étude enérgico despeja
a impaciência por algo que está prestes
a acontecer: hoje, amanhã, quem sabe
agora mesmo, oculto, do seu lado;
da janela, onde um mundo inteiro cabe,
ela percebe o parque arrebicado.
Desiste, enfim, o olhar distante; cruza
as mãos; desejaria um livro; sente
o aroma dos jasmins, mas o recusa
num gesto brusco. Acha que á faz doente.
-Rainer Maria Rilke in Exercícios ao Piano